29 de setembro de 2014

MERITOCRACIA?

Charge: Vitor Teixeira
Reflexões - Por Ionara Nunes
Há tempos, vejo se propagar discursos contrários aos programas de distribuição de renda, cotas raciais, acesso a bolsas de estudo pelo governo, enfim, os muitos programas sociais endeusados por uns e demonizados por outros. Vejo também discursos cada vez mais inflamados defendendo a meritocracia, pois muito bem, é dela que quero falar.

O mérito, o merecimento, sempre foi importante para qualquer pessoa ou grupo alcançar com sucesso algum objetivo de vida, mas não há que se falar em mérito, no caso específico brasileiro, quando historicamente não há igualdade de condições de competição.

Milhares de crianças e jovens, filhos das classes desfavorecidas de dinheiro, durante décadas, séculos, tiveram que competir em vestibulares da vida com os jovens de número minoritário que tiveram acesso não só ao melhor ensino, mas a melhor comida, a melhor roupa, aos melhores roteiros de viagem, enfim a uma melhor vida...então, esses mesmos jovens e seus defensores, por ver o número de vagas nas universidades públicas diminuírem por causa das cotas raciais e os programas de bolsas de estudos, lamentando que não se entra mais nas universidades através do merecimento, mas porque o governo ajuda. 

Vejamos o seguinte fato: se nossos jovens, em toda a história do Brasil, não os de agora, tivessem acesso as mesmas condições de vida e portanto de estudo, seria justíssimo falar em mérito, mas como falar em meritocracia se existe um abismo que sempre separou esses grupos? Desigualdades sociais sempre existiram no mundo, mas a brasileira é generalizada e impeditiva, tipicamente arquitetada para quem está no estrato inferior nunca sair de lá e é aí que a escola pública de nível básico é ainda tão ruim, pois como fica a iniciativa privada a parcela de oferecer boas escolas de nível básico, quem tem mais acesso às melhores universidades? Aqueles que puderam ter mais acesso ao bem mais precioso de um povo, a educação. 

Enquanto não forem oferecidas as mesmas condições de competição seja na escola ou em uma gincana de bairro, não há que se falar em meritocracia e sinceramente, quem a defende em condicionantes tão desiguais apenas quer maquiar seu discurso hipócrita de medo de uma concorrência na perda de privilégios históricos de uma pequena classe.