19 de setembro de 2014

Por que eles podem e nós não?

Reflexões - Por Ionara Nunes

Recentemente venho tendo uma postura contemplativa em relação à algumas experiências de minha vida. Uma dessas experiências que mais me marcou foi a primeira viagem internacional. Era o ano de 2011. Estava em uma fase onde havia passado em um concurso público, estava começando uma vida nova, estava feliz e mais independente. Aproveitei a primavera na Europa e fui conhecer a França, lindo lugar realmente, mas ao contrário de muitas pessoas que viajam para um lugar tão bonito, não consegui fazer turismo. 

Em cada lugar que passava, via os monumentos, as calçadas, as pessoas, os problemas, os motivos que fizeram aquela terra ser do jeito que é e não conseguia parar de pensar no Brasil e em suas particularidades e complexidades. Essa primeira viagem me fez perceber que mesmo estando em um país considerado desenvolvido, de sua população ter uma renda mais alta que a nossa, e sua população ser mais bem educada, percebi que eles, os europeus, olham para nós da mesma maneira. Ah que país lindo onde vocês vivem, escutava de uns, que povo bonito e alegre, escutava de outros, vocês trabalham muito, escutei também, o seu país é muito rico, escutava de outros... também desmistifiquei muitas outras coisas que pensava não existir por lá... 

Presenciei pessoas pedindo esmolas, cheiro forte de esgoto em Paris, estrangeiros vendendo falsificações das bolsas de marcas caríssimas, assaltantes, sucateamento gradativo dos direitos sociais e empobrecimento da população... e também um conflito social muito forte em relação à causa Árabe... um grave problema... mas também vi uma coisa que falta em nós e adoraria que a moda pegasse por aqui: o conceito de coisa pública, direitos coletivos, urbanização voltada para a coletividade e respeito ao patrimônio de todos... muitos se sentem felizes nos metrôs de Paris ou Nova Iorque, mas não conseguem utilizar o transporte público no Brasil, pois é coisa de pobre. Outros, respeitam todas as civilizadas leis de trânsito da Suíça, também visitei, mas parar para o pedestre passar na faixa é tido como um grande favor... por que somos assim? 

Seria nossa tradição colonialista que nos traz no íntimo uma admiração pela cidadania desenvolvida na Europa, mas que nos sentimos desmerecedores dela? E afinal por que acreditamos que a cidadania aqui tem que ser aliada a dinheiro? E porque muitos em vez de tentar fazer de sua pátria mais civilizada e decente prefere ir embora para viver em um lar mais civilizado? Será que esses que assim pensam não sabem que os europeus são mais civilizados e mais organizados porque lutaram muito e se sacrificaram durante séculos e primeiramente se valorizaram para depois adquirirem o respeito do resto do mundo? Então...essa foi a maior lição que as viagens que fiz e faço me trouxeram...um entendimento de que problemas existem em qualquer lugar e que se quisermos nos valorizar e respeitar enquanto povo e nação, precisamos nos reconhecer, valorizar e nos unir para superar nossos problemas, como os europeus fizeram no passado e continuam fazendo hoje...