12 de maio de 2015

Augusto Severo: Aeronauta, Cientista, Deputado Federal, Pesquisador e Pioneiro da Aviação


Augusto Severo de Albuquerque Maranhão nasceu em Macaíba em 11 de janeiro de 1864, falecendo tragicamente em Paris, no dia 12 de maio de 1902, aos trinta e oito anos de idade. Era o oitavo filho de Amaro Barreto de Albuquerque Maranhão e de Feliciana Maria da Silva Pedroza. Foi casado com Maria Amélia Teixeira e após viúvo, em segundas núpcias, com Nathália Cossini. Teve sete filhos, dos quais três deixaram descendência.

Faleceu em Paris/França aos 12 de maio de 1902, na explosão do dirigível Pax. O corpo carbonizado de Augusto Severo transladado de Paris a bordo do navio Brésil foi enterrado no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, aos 18 de junho de 1902. Por coincidência, embarcado para o Rio de Janeiro neste mesmo paquete, faleceu em 1906 no porto do Recife, o Senador Pedro Velho, seu irmão mais velho.

Augusto Severo foi um macaibense audacioso e sonhador. Embora estivesse exercendo mandato de Deputado Federal pelo Rio Grande do Norte, rumou à França levando o pouco dinheiro que economizara com as vendas de alguns bens e algumas joias de família, na esperança alucinante de efetivar seu projeto aéreo. Era então tido como excêntrico em sua terra. A pobreza e o descrédito de alguns contemporâneos não abateram seu ânimo.

O CIENTISTA AERONAUTA

Augusto Severo inscrevia-se entre aqueles que acreditavam que o futuro da aeronáutica dependia da evolução do Semi-Rígido Dirigível, os Navios Aéreos.

Com o surgimento do Semi-Rígido, de formato cilíndrico e alongado como um charuto, as experiências com os Balões Esféricos começaram a ser abandonadas. Os novos modelos eram mais difíceis de serem conduzidos. Nos balões, regulava-se a altura liberando o gás quando se pretendia descer ou soltando-se o lastro (formado quase sempre por sacos de areia), quando se pretendia alcançar maior altura. O segredo para voar nos balões, obedecia a três princípios: a partida, o equilíbrio aéreo e por fim a aterrissagem.

O Dirigível Semi-Rígido, assim chamado porque sobre a estrutura rígida ou carcaça havia um invólucro flexível, no qual armazenava-se o gás inflamável, num processo assemelhado ao que ocorre com as bolas de soprar usadas pelas crianças, era impulsionado por um motor que lhe oferecia velocidade superior a das correntes aéreas, permitindo a navegação dirigida. Tinha que se considerar o perigo dessas máquinas explosivas, nas quais motores a gasolina funcionavam próximos a massa de gás inflamável.

O primeiro voou não aconteceu de repente. Obedeceu a vários momentos onde as experiências aconteciam na maioria das vezes para comprovar observações ou opiniões intuitivas, do que para asseverar hipóteses científicas.

Vejamos algumas experiências e contribuições de Augusto Severo.

O ALBATROZ – 1882
Segundo Alberto Maranhão, que foi seu aluno, em Natal, tentou Augusto Severo o mais pesado que o ar em experiência que alarmou o espírito rotineiro do pequeno meio social da época. Lembramo-nos ainda, eu e meus condiscípulos do ginásio norte rio grandense, dos passeios que conosco fazia o querido Vice-Diretor de 18 anos.

Augusto Severo chefiava a turma; e com a idade igual à dos maiores dos seus dirigidos, tomava parte ativa em todos os folguedos dos estudantes nos vários números e múltiplos de nossas diversões. Um dia, foi um espanto! Todos nós, conduzindo "papagaio", com seus cumpridos "rabos" presos ao papel de cores do conhecido brinquedo – ainda usado pelas crianças em certas épocas do ano –, marchamos para as dunas de Natal onde o vento era rígido para soltarmos, ao ar lavado da margem direita da foz do Potengí, nossos papagaios, de formas várias, em cores verde e amarela, azul e encarnada, para vermos qual mais alto subiria no vasto oceano aéreo.

O Vice-Diretor, que se fazia acompanhar por um encarregado conduzindo um grande encapado, dizia-nos, que ali, naquele embrulho pesado, levava ele também seu PAPAGAIO. Este, porém, não tinha rabo, reminiscência da civilização milenar dos chineses, e subiria equilibrado em sua própria estrutura, porque tinha asas, e, no futuro, dizia ainda o jovem gênio juvenil do mestre, ele marcharia no espaço em todas as direções, movido por um motor que ele, o autor, imaginara e vinha experimentando na tentativa de conseguir (o moto-contínuo).

O papagaio original chamava-se ALBATROZ. Houve uma aclamação da ardorosa rapaziada que adorava o jovem mestre e amigo. Momentos depois, antes as vistas admirativas dos estudantes que aplaudiam o invento de Severo, o Albatroz, que tinha a forma de um pássaro, em cores branca e azul, simbolizando a PAX, jogada no ar pelo carregador, do cimo de um pequeno cômoro de areia e preso ao cordão forte que Severo empunhava, subia airosamente, a grande altura, tangido pelo vento e governado pelos impulsos que lhe dava pelo cordão, o inventor. Depois, arreado o aparelho, Severo explicava a estrutura do PAPAGAIO SEM RABO; e dizia iluminado: Ele terá uma hélice, será dirigido, levantará voo e marchará no espaço aéreo acionado por um motor de pouco peso e alta potência. Este, porém, não é ainda conhecido. É o mistério que a ciência atual procurará desvendar.

BARTOLOMEU DE GUSMÃO – 1893

Financiado pelo Ministério da Guerra, durante o governo de Floriano Peixoto (1893), um novo aeróstato, com o nome de Bartolomeu de Gusmão, homenageava o pioneiro da aeronáutica nacional. Devido ao tamanho, recebeu ainda outra denominação, navio de alto ar. Ele voou com algum êxito no campo do Realengo, no Rio de Janeiro, tendo, contudo, se espatifado contra o solo. A façanha não bem sucedida está registrada na obra La Navigation Aérienne, de Joseph Lecornu na página 436, assim como a descrição das características originais do projeto, considerado um notável avanço para se chegar ao dirigível aéreo.

O PAX, 1902

Na construção do balão PAX, em Paris, Augusto Severo contou com a importante ajuda do mecânico George Sachet. A barquinha era construída de bambu e junto a ela estavam fixados dois motores Buchet, de quatro cilindros cada um, de 16 hp e de 24hp. Os ditos motores se situavam nas extremidades da barquinha, de sorte que, pelo interior da mesma, era possível ir de um motor a outro.

Os motores impulsionavam as hélices traseira e dianteira por meio de tubos de aço e engrenagens (pinhões) transmitindo o movimento das duas hastes horizontais, nos extremos das quais se fixavam as hélices. Estas eram do tipo propulsivo, mediam, a da frente 5 metros de diâmetro e a traseira 6 metros e giravam a 50 rpm. Além destes, havia ainda dois pares de hélices também acionadas pelos motores e colocadas no mesmo eixo normal ao plano longitudinal de simetria, tendo por objeto exercer o papel de lemes.

Uma sétima hélice compensadora, de 3,5 metros de diâmetro, destinava-se a corrigir as inclinações verticais e estava colocada sob a barquinha, podendo ser utilizada para manter o equilíbrio do aeróstato.

O aparelho representava uma nova concepção de dirigível. Até então, os aparelhos eram compostos de duas partes distintas, unidas por cordas ou fios de arame: o invólucro contendo o gás e a barca contendo o motor, local em que viajava o aeronauta. A separação entre os dois corpos causava um movimento oscilatório durante o voo e provocava considerável perda de velocidade, energia e capacidade de manobra, além de representar um fator permanente de acidentes.

TEORIA ASCENSIONAL - Imaginava que voando alto, reduziria a força da resistência atmosférica, proporcionando com a mesma força motriz maior velocidade, ao tempo em que o dirigível estaria mais protegido dos vendavais e das descargas elétricas. Este princípio desenvolvido por Augusto Severo foi ignorado durante décadas pela aviação civil. Atualmente constitui-se num procedimento padrão adotado pelos pilotos comerciais para fugir das turbulências meteorológicas e para reduzir o consumo de combustível.

Por Anderson Tavares de Lyra - Historiador