27 de maio de 2015

Como pensa o prefeito que implantou o passe livre


Por Artur Voltolini, para o Brasil 247

Washington Quaquá,  43, nascido na favela do Caramujo, em Niterói, é prefeito reeleito de Maricá – na Região dos Lagos do Rio de Janeiro –, e presidente do PT fluminense desde 2013. [Veja a seguir parte da entrevista]

Tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro empresas de ônibus, controladas por poucas famílias, são grandes doadoras de campanha. Não seria necessário romper com elas?
 
- Claro, pra você romper... Aqui eles são grandes doadores contra mim. Foram derrotados. Mas doam para os meus adversários. É preciso ter vontade política de enfrentar o poder econômico das empresas de ônibus. Eles têm muito dinheiro, financiam os políticos, financiam todo o sistema politico, sobretudo nos municípios e nos estados.

Como funciona o financiamento de campanha? Digamos que eu seja dono de uma empresa de ônibus, e eu contribua com doações para sua campanha, e que você seja eleito. Se seu governo for contra meus interesses, qual é a forma de pressão que eu posso utilizar?
 
- A forma de pressão é a seguinte: o cara chega em você, assim que você ganhou as eleições, o cara chega e ó: “Te dou cem mil reais por mês pra você não tocar nos ônibus, não deixar Van entrar, não mudar o sistema. Não faz nada, deixa como tá. Tem cem paus por mês aí pra comprar o leite das suas crianças”. É direto. Logo que você senta na mesa aqui tu recebe a proposta. Aceita quem quer.

O Haddad fez uma grande auditoria nas empresas de ônibus da cidade de São Paulo, que descobriu irregularidades na taxa de lucros das empresas, no número de viagens dos ônibus. Você crê que isso faça parte de um roteiro para alcançar o passe livre?

- O Haddad é um cara de esquerda, e é um puta prefeito, que tem colocado novas discussões na cidade de São Paulo, que é uma cidade complexa. Obviamente que implantar a tarifa zero lá não é como implementar aqui em Maricá, que tem 150 mil habitantes, mas dá pra implantar.

Essa é uma discussão nacional. A presidenta Dilma, que fez o Mais Médicos, que enfrentou a corporação dos médicos com o Padilha, devia criar um plano de mobilidade urbana para as médias cidades, que têm entre 100 e 300 mil habitantes. Implementar nelas a tarifa zero num primeiro momento, e avançar aos poucos nas grandes cidades, colocando tarifa zero em alguns trechos das periferias. Podia pegar a Zona Oeste do Rio e dizer: “Vai ter ônibus de graça”, indicando que em oito anos vai implantar tarifa zero na cidade inteira. Teria que ter recursos federais. O próprio Haddad propôs isso – que é uma bela proposta – da Cide, aquela contribuição sobre a gasolina, voltar para os municípios que implantarem a tarifa zero. Poderia criar um imposto sobre a folha de pagamento, já que onde tivesse tarifa zero os empresários não pagariam mais vale transporte, para ajudar a subsidiar o sistema. Ou seja, o que tem que fazer é tirar o sistema da mão das empresas privadas.

Transporte publico é um direito, como saúde e educação. Nós queremos construir um Estado de Bem-Estar Social no Brasil, mas diferente do modelo europeu. Lá o subsidio era dividido em três terços, um os empresários, outro o Estado e o último os trabalhadores. Mas lá os trabalhadores tinham um poder de compra muito grande, vinham acumulando salário, eles podiam ajudar a subsidiar o sistema. Aqui não. Aqui o transporte é um impacto imenso no orçamento e na renda do trabalhador.
 
 O senhor falou para a Carta Capital que enfrentou a máfia mais antiga da cidade ao implementar a tarifa zero. O senhor sofreu ameaças?

- Várias vezes já tentaram me matar. Pouco antes de eu tomar posse, estava em Itapuaçu jantando com meu filho, minha mulher, e um casal de amigos, quando dois caras entraram. Meu segurança conhecia um deles, que tinha sido expulso do Bope. Os caras entraram pra me matar, só abortaram a missão porque meus seguranças estavam armados do meu lado. Depois sofri um monte de ameaças de morte. Hoje em dia não recebo mais. Meu vice é do PT, sou presidente estadual do PT, se eu morrer não faz nenhuma diferença. Se eu morrer eles só vão jogar água no moinho.
 
As concessões para as empresas de ônibus em Maricá vão até 2020, só lá o prefeito poderá fazer uma nova licitação.

- Aqui o seguinte: Nossa meta é acabar com o serviço privado. Nós estamos negociando com a empresa Costa Leste, que está falindo, a compra do terreno deles pra fazer a garagem da nossa empresa.

Ela está falindo por causa dos ônibus gratuitos?

- Ela já estava falindo. Ela presta um péssimo serviço, ela não cumpre os contratos, os ônibus têm buracos no meio, são horrorosos. Só que agora com nosso ônibus gratuito piorou a situação deles. Estamos propondo a compra da garagem deles pra alocar nossos ônibus nessa garagem. Ao invés de construir, compramos. Temos a perspectiva de não ter mais ônibus privados, não quero seus ônibus que estão velhos, nem suas linhas. Eu quero que eles desistam.

Hoje 11 ônibus rodam com tarifa zero em Maricá. Até o fim de seu mandato, em 2016, quantos ônibus o senhor espera ter?

- 40, e atendendo a 100% da população.

Economicamente, para a empresa Amparo, a maior da cidade, vai ser muito ruim, não?


- Problemas deles, não é problema meu. Eu não governo pra eles.

Entrevista na íntegra: www.brasil247.com