14 de maio de 2015

O primeiro dia do sonho de uma travesti

Créditos: Brenda Albuquerque


Quarta-feira, 6 de maio de 2015. Primeiro dia de aula de, Rebecka de França. Aprovada no curso de Geografia do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), ela estava nervosa. É a primeira aluna travesti do IFRN Central e não se sabia ao certo como as pessoas iriam reagir. Chegamos às 18h e minha intenção era conhecê-la e ver de perto a reação dos alunos ao verem ela na sala de aula. Eles olhariam Rebecka diferente, ou aceitariam como ela é?. Essa era uma curiosidade que me acompanhava até o momento da chegada.

A vida de travesti e transexuais no Brasil não é nada fácil. A expectativa de vida delas é de 36 anos, 27 anos a menos do que a média nacional. Loira, vaidosa e de um coração imenso, Rebecka se orgulha da sua identidade de gênero. Ela sonha em quebrar o preconceito que ainda é muito forte nos dias de hoje. Por não serem aceitas no mercado de trabalho, as travestis precisam se submeter à prostituição – atividade que elas nada se orgulham – para sobreviver. Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra), 90% das delas estão neste caminho. Rebecka, que quer ser professora, é uma exceção.

Logo na entrada da instituição senti que tivemos uma abordagem diferente por parte do segurança do Instituto. “Para onde vocês vão?”. Foi o que ouvimos enquanto víamos as pessoas circularem livremente. Ora, estávamos em uma escola pública, não precisaríamos dar explicações sobre o que iríamos fazer ali. Rebecka também não se sentiu bem e questionou a um de nossos amigos se todos os dias receberia esse tipo de abordagem, já que chega a ser constrangedor.

Deixei que ela andasse mais à minha frente, assim eu teria uma visão melhor da reação das pessoas. Por ser uma mulher bonita, ela claramente chama a atenção. Olhares indecentes, curiosos e amigáveis a cercavam durante sua ida à coordenação.

Por não conhecermos o local, nos perdemos algumas vezes até encontramos alguns colegas de classe de Rebecka, que também estavam perdidos. Ela, desinibida, não hesitou em conversar com eles (uma mulher e dois homens). Minha impressão é que a receberam – de forma aberta, sem barreiras e me senti aliviada.

Aliviada porque temi que alguém a desrespeitasse e me sentia no dever de defendê-la, mesmo sabendo que ela não precisa que alguém faça isso por ela. Rebecka é emponderada o suficiente para isso. Mas ela estava bem e então, fomos todos juntos em direção ao auditório da instituição, pois recebemos a informação de que haveria a recepção aos novos alunos.

Ao chegarmos, pude ver claramente o nervosismo dela ao ver tanta gente naquele lugar. Percebi que aquela desinibição havia dado lugar a timidez e um certo medo de rejeição. Talvez estivesse lembrando de experiências passadas como quando foi em uma entrevista de emprego e teve seu currículo , justo pelo fato de ser travesti, negado. Ou como quando ela não pôde vender espetinhos perto de um bar por causa do seu gênero.

Deixei que Rebecka tivesse o tempo dela, afinal aquilo tudo era uma nova situação. Os desafios que viriam nos próximos dias podem também ter vindo em sua mente. Será que vão aceitá-la? E o banheiro? Qual será a reação das pessoas ao vê-la entrando no banheiro feminino?

Voltamos para a entrada do auditório e lá Rebecka confirmou o que eu já sentia. Estava nervosa. Tivemos uma conversa em frente ao banheiro feminino que ela fez questão de entrar na intenção de quebrar a expectativa. Nada aconteceu.

Para que ela não perdesse mais nenhum momento do primeiro dia tão especial, fui embora. Deixei que enfrentasse essa nova etapa da sua vida sozinha, como sempre fez.

Os próximos dias ainda podem ser de ansiedade, mas eu espero que Rebecka continue sendo bem recebida por seus próximos colegas e que sua formação seja conduzida da melhor forma possível.

A luta contra o preconceito a qualquer pessoa LGBT é diária e quanto mais Rebeckas existirem, mais esperança vou ter que se supere esta realidade tão excludente. Meu sonho é que posso vê-la formada e atuando dentro da sala de aula, como professora, para que ela consiga quebrar um pouco dessas barreiras da nossa sociedade machista e patriarcal. Além de servir de exemplo a outras travestis e transexuais que buscam uma realidade melhor.

Mas o caminho é longo. É difícil falar sobre gênero quando todos parecem não querer enxergar a realidade ou quando uma doutrina religiosa e “ideológica” te impede ser ao menos gentil com quem é diferente de você. Rebecka teve a sorte de sua família apoiá-la e não deixar que seu destino fosse entregue às ruas. E, mesmo dentre todas as adversidades, ela consegue ver beleza em tudo. Precisamos discutir gênero e precisamos de mais Rebeckas.