8 de julho de 2015

Guardião dos quatrocentões


A trajetória dos Albuquerque Maranhão se confunde com a história do Rio Grande do Norte, um passado de lembranças rarefeitas desconhecido para a maioria dos potiguares. Muito além de emprestar o sobrenome para batizar ruas, praças e teatro, a família está envolvida com este pedaço de chão na esquina do continente desde o século 16, personagens ilustres que protagonizaram episódios cruciais para a própria existência do ‘elefante’ e de sua capital. O legado de nomes como Jerônimo e André de Alquerque Maranhão, Alberto Maranhão, Pedro Velho, Augusto Severo e Augusto Tavares de Lyra integram a identidade cultural do povo potiguar, e boa parte da documentação que detalha tais feitos está sob a guarda do pesquisador e historiador Anderson Tavares de Lyra.

Quinta geração que descende de Luzia Antônia, irmã de André, Anderson, de 35 anos, já defendeu dissertação de Mestrado sobre o trisavô Augusto Tavares de Lyra (1872-1958) e atualmente está dedicado a pesquisas para tese de Doutorado sobre Alberto Maranhão (1872-1944).

Neste próximo sábado (11), às 14h, ele profere palestra gratuita no auditório da livraria Saraiva do shopping Midway Mall, onde destrincha a genealogia da família e destaca os feitos de seu tio-tetra-avô André de Albuquerque Maranhão (1775/1780-1817), chefe da Revolução Pernambucana de 1817 no RN  e Senhor de Cunhaú em Canguaretama. “Basicamente vou falar sobre duas coisas: a primeira é esclarecer quais os dois ramos da família, e a segunda quem é dizer foi André de Albuquerque”, adianta o pesquisador.

Do lado do ramo pernambucano da família Albuquerque Maranhão estão o aviador Augusto Severo, o político Alberto Maranhão e o militar Pedro Velho. “O bisavô deles saiu de Cunhaú, foi para Nazaré da Mata e depois voltou para o RN se instalando em Macaíba. Foi esse ramo da família que criou o Casarão dos Guarapes, importante entreposto comercial no início entre a metade do século 19 e início do 20. Já o ramo do qual pertenço, de André de Albuquerque e Tavares de Lyra, não saiu do RN”, ensina.

A palestra do dia 11 é gratuita e faz parte da programação do Grupo de Estudos André de Albuquerque Maranhão (GAM), criado no início de 2013 em parceria com núcleo de extensão Grupo de Estudos sobre a Liberdade (GEL) da UFRN. “Sou apenas convidado do GAM”, avisa Anderson.

Consultor de História do RN e do Brasil para os períodos do Império e da República Velha, ele é o atual responsável pelo acervo de Tavares de Lyra e Alberto Maranhão – material que inclui correspondências, documentos, condecorações e fotografias.

Acervo: organização e parceria
Anderson Tavares de Lyra começou a pesquisar aos 13 anos, e já ciente da responsabilidade do sobrenome passou a colher de forma sistemática depoimentos de idosos que tinham convivido com seus familiares ilustres. “Tenho muita coisa, boa parte já identificada e minimamente organizada, mas prefiro não publicar esse acervo na internet de qualquer jeito, perde-se muito da história. Preciso criar maneiras de disponibilizar isso de alguma forma”, disse o historiador.
Ele fundou o Instituto Tavares de Lyra, em Macaíba, para preservar o acervo do trisavô famoso. O Instituto ainda não está funcionando, pois o material ainda precisa ser catalogado para ser consultado. “Pretendo buscar parceria para manter esse acervo. Vou procurar a UFRN e outras instituições que possam ajudar e/ou se interessem”, informou o pesquisador, que também planeja reeditar alguns livros de Tavares de Lyra pelo selo “A Liriana”.

“Tavares de Lyra foi o primeiro a escrever sobre a história do RN, depois dele só Câmara Cascudo. O resto é balela”, disse com propriedade.

Historiador alerta para pilhagem de obras
Defensor da memória, Anderson chama atenção para a pilhagem que vem desfalcando monumentos do Centro Histórico. “Estão roubando criminosamente os bronzes de nossas praças, muitos deles vindos da Fundição Du Val D’Osne, de Paris (França). Grande parte foi importado na época que Alberto Maranhão foi governador (1900-1904 e 1908-1914)”, lamentou.

Anderson Tavares de Lyra destacou que a fundição parisiense não existe mais, mas conta que os descendentes trabalham na catalogação das obras. “Entrei em contato com eles, que não sabiam que tinham peças aqui em Natal, enviei muitas fotos que fiz dos monumentos e disse que a maioria foi roubada”.

São dessa época a escultura em bronze de uma índia estrangulando uma cobra instalada no jardim do Palácio Potengi – Pinacoteca do Estado. “Das placas, só restaram a do obelisco da Av. Tavares de Lyra, na Ribeira. As outras foram todas roubadas: na Praça 7 de Setembro e Praça André de Albuquerque, na Cidade Alta; na praça Augusto Severo, Ribeira; e na praça Pedro II no Alecrim. O potiguar não faz ideia da própria história, sabe muito pouco sobre a Segunda Guerra Mundial mesmo com o pessoal da (extinta) Fundação Rampa divulgando bastante”.

Yuno Silva – Repórter
Colaborou: Cinthia Lopes – editora
Via Tribuna do Norte