17 de dezembro de 2015

Admita-se, Eduardo Cunha é um espetáculo em frieza e equilíbrio


Por Jean Menezes de Aguiar

Não há ironia aí. Nem crítica. O que é pior. A frieza e o cinismo não são subprodutos da burrice, mas superprodutos da inteligência. Uma que habilita o agente – como ele se treinasse- a ser frio, imbatível, inalcançável.

É claro que psicólogos quererão, no caso Cunha deste 15.12.2015, que 'no fundo' ele pudesse estar 'tremendo'. Inacreditavelmente sua calma cênica perante jornalistas famintos de seu fígado; seu imperdível raciocínio lógico, fazendo dos mesmos jornalistas uns ginasianos; e seu cinismo olímpico, mostram um Cunha realmente tranquilo. Arriscar-se-ia dizer, em paz. Quase bocejando, com preguiça. Ou para a ira de muitos: superior a todos ali. Não se trata apenas de um comportamento blasé, mas de uma interessante calma interior. Seria Cunha 'budista'?

Quando se fala em 'calma', é uma calma que obviamente não condiz com o verdadeiro e custoso inferno judicial, político e público que o deputado está enfiado. Até o pescoço.

Mas ainda sobre a icônica entrevista desta terça feira fatídica, logo após o deputado receber a polícia vestida com roupa de guerra ao Estado Islâmico, é como se faltasse um, apenas um jornalista genial. Para expô-lo, fazê-lo engasgar. Cunha saiu como entrou. Sem incômodo com a imprensa. Pôs todos no bolso.

Parece que não há perguntas incômodas para Cunha. Aliás, é ele que controla quem pergunta. E o quê. Como 'raiva' é um sentimento próprio do impotente, não é hábil um jornalista ali demonstrá-la. Há apenas que se aumentar a inteligência. Mas, de novo, com Cunha na entrevista, foi 4 a zero para ele.

Se a atual oposição brasileira é frágil, bobinha e quebradiça; alguém já disse que Eduardo Cunha é o político que o PT adoraria ter. Outro dia Merval Pereira, na Globonews, reconheceu meio envergonhado que se o presidente da Comissão de Ética da Câmara fosse Cunha a fatura já estaria liquidada. A política é realmente adorável.

Chico Alencar, na Comissão de Ética deste 15.12.2015, horas depois da visita policial às mansões de Cunha, lançou o factoide de que Cunha renunciaria. Se o interesse era uma sacana transgressão, valeu. Alvoroçou. Mas o super-Cunha na entrevista quase gargalhou da hipótese de renúncia.

Cunha 'começa' a se mostrar uma personalidade interessante. É o lindo e louco Stansfield do filme O profissional, vivido pelo maravilhoso Gary Oldman, ouvindo música clássica enquanto matava toda a família de Mathilda, a tiros de 12.

Garante que receber o camburão da Polícia Federal às 6 horas da manhã em casa, com ordem judicial emitida pelo Supremo Tribunal Federal 'né nada demais'. É coisa que qualquer brasileiro tem que encarar com naturalidade. Cunha é ou não é uma figura a ser estudada?

É claro que quando a desfaçatez é utilizada em segmentos como a empresa, a família ou entre pessoas que a 'aceitam', é algo triste, mas a sociedade e as leis de mercado se incumbem, ou deveria ser assim, de defenestrar a criatura tosca. Mas quando isso tudo acima é regado a dinheiro público, aí a situação perde a graça.

Cunha continuará a ser este prodígio de verborragia, fluidez léxica, agilidade mental e ilusionismo cênico. Talvez só perca a graça mesmo quando a polícia lhe visitar para levá-lo preso. Se acontecer, claro.

Ou quando este Legislativo aí cassá-lo. Será?. Aí, 'estima-se' que ele experimente um gosto ruim na boca. Ou não.

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Jean Menezes é Advogado e professor da pós-graduação da FGV
Texto via Brasil 24/7