19 de fevereiro de 2016

Um ano da morte do pai de santo Dedé de Macambira


Pai Dedé de Macambira (1942 - 2015) – Foto: Arquivo pessoal da família

Há exatamente um ano, no dia 19 de fevereiro de 2015, Macaíba perdeu o maior e mais antigo pai de santo da cidade, o lendário José Pedro de Alcântara, conhecido popularmente por Dedé de Macambira e carinhosamente chamado por Pai Dedé pelos diversos filhos espirituais que atendeu ao longo dos quase 60 anos como pai de santo. 

Filho de Sebastião Pedro Alcântara e Lídia Maria da Conceição, nascido em Santa Cruz no dia 15 de abril de 1942 e décimo segundo de um total de 15 filhos, Dedé de Macambira veio morar em Macaíba, juntamente com sua família, no ano de 1947, em busca de melhores condições de vida.  Na época, ele tinha cinco anos e sua família trabalha nas pedreiras da cidade.

Dono da Casa de Umbanda mais antiga da cidade, Pai Dedé era filho dos orixás guerreiros, Ogun e Iansã. Aos 13 anos. ele estava morando em Itumbiara no interior de Goiás, para onde foi levado por seu pai para trabalhar nas firmas. Foi lá que ele conheceu a Umbanda e nunca mais parou. Foram 56 anos dedicados a única religião nascida no Brasil.

Leandro Alcântara, 29 anos, filho e herdeiro
espiritual do Pai Dedé
"Quando meu pai morava em Itumbiara, ele se sentiu mal e o levaram para um terreiro de lá. De primeira, ele recebeu um de seus guias, que lhe disse para começar a desenvolver sua mediunidade", disse o único filho homem de sangue e herdeiro espiritual do Pai Dedé, Leandro Alcântara, 29 anos, conhecido por babalorixá Leandro de Oxossi, que é formado em turismo pela extinta Faculdade União Americana de Parnamirim.

No ano de 1959, após fazer as obrigações (iniciações) em Goiás, Dedé de Macambira, no auge dos seus 17 anos, voltou para Macaíba e fundou o seu primeiro terreiro em 27 de setembro daquele ano, com nome Centro Espirita de Umbanda Oxum das Cachoeiras.

"Quando meu pai voltou de Goiás, já estava pronto para abrir o seu terreiro. Foi aí que ele conheceu uma família para quem fez alguns trabalhos espirituais. Depois, ele foi morar com essa família. Morou por mais de quinze anos e, juntamente com eles, fundou o seu primeiro terreiro, que funcionava numa casinha de taipa, onde hoje é a Travessa Antônio Pereira dos Santos, conhecido por Beco da Quarentena, ao lado do cemitério. Na verdade, meu pai foi morar de favor, pois, na época, tudo era muito difícil", disse Leandro.


Segundo Leandro, o registro em cartório do Centro Espirita de Umbanda Oxum das Cachoeiras foi feito naquele mesmo ano. Em 1965, após o surgimento da Federação Espirita de Umbanda do Rio Grande do Norte, Dedé registrou o seu terreiro nessa federação.

"No decorrer dos anos em que meu pai morou na casa dessa família", conta Leandro, "ele fez uma cura numa mulher que morava no exterior. Após alcançar a graça, essa mulher doou uma quantia em dinheiro para ele, que resultou na compra da sua primeira casa própria". Na verdade, explicou Leandro, foram duas casas: tinha a casa onde Dedé morava e, ao lado, a casa onde funcionava o terreiro de Umbanda.

Esse foi o segundo terreiro fundado por Pai Dedé. Esse terreiro ficava localizado também na Travessa Antônio Pereira dos Santos, onde hoje é um Galpão, que fica bem ao lado de dois salões de beleza, descendo para a Rua Nova. "Foi ali", conta Leandro, "que meu pai tirou os meus avós do aluguel, casou com a minha mãe, dona Ivone Alcântara, e começou a criar o povo".

Aqui, Leandro está se referindo ao Dedé de Macambira caridoso e sempre disposto a ajudar as pessoas, que, infelizmente, foi vítima do preconceito e intolerância humana.

"Meu pai ajudou muita gente. Cuidou de muitas pessoas idosas e outras tantas que não tinham para onde ir. Elas ficavam aqui em casa. Além disso, ele criou um monte de sobrinhos e filhos de pessoas do nosso terreiro que acabavam ficando por aqui. Muitos que chegavam, só saíram daqui adultos. Foram mais de 30, juntando tudo. Às vezes, muitas outras crianças, jovens, adultos e idosos passavam anos em nossa casa. Até hoje, ainda recebemos pessoas. Tem um que veio de Minas e, por não ter para onde ir, está aqui conosco. Tanto meu pai, como a minha mãe, cuidaram de muitas pessoas", disse Leandro ao falar de um Dedé de Macambira muito diferente das histórias macabras que pessoas mal intencionadas inventavam sobre ele.


Pai Dedé, amigos e familiares – Fotos do arquivo pessoal da família

"Meu pai era sempre muito preocupado com outros. Ele era uma pessoa 'barriga cheia'. Podia faltar tudo, menos comida. Como ele mesmo dizia: sou preto, feio e pobre, mas, na minha casa, não falta o que comer. Ele era demais! Acho que nunca vou conhecer uma pessoa como ele, pois ele fazia de tudo um pouco: pastoril, quadrilha junina, escola de samba, costurava as roupas de seus filhos de santo, cozinhava para festas, estava dentro de tudo e tudo tinha que passar por ele", disse.

Dedé de Macambira, assim como todas as outras pessoas adeptas das chamadas Religiões de Matriz Africana, foi vítima do mais cruel preconceito, maldade e intolerância humana. Leandro explica que seu pai sofreu muito por causa disso:

"Fizeram a fama de que meu pai matava o povo na macumba com seus feitiços. Até mesmo outros pais de santo que tinham inveja e rivalizavam com o trabalho e o terreiro do meu pai. Isso acontecia porque ele sempre foi muito organizado com suas atividades espirituais. Tinha um conhecimento riquíssimo de rezas e ervas. Foi por esse motivo que ele ganhou o apelido carinhoso de pajé. Coisa nata. Herdada do meu avô, pai de meu pai, que também era curandeiro, porém, nunca foi pai de santo. Ele apenas curava. Foi dele que meu pai herdou o codinome Macambira, porque o meu avô era o verdadeiro Macambira, Sebastião de Macambira. Quando meu pai morreu, sofremos algumas retaliações e brincadeiras de mal gosto como, por exemplo, de ouvir pessoas falando que ele foi para o inferno e que pagou por todas as coisas que fez. Pessoas ignorantes que não conheceram o verdadeiro Dedé de Macambira. Mas estamos bem e conscientes de que meu pai está no orum (lugar de descanso) e continuaremos sua missão aqui no aye (terra)".

Pai Dedé era muito querido por seus familiares – Fotos do arquivo pessoal da família

Em 1981, Leandro conta que seu pai se mudou da segunda casa para a casa onde hoje eles moram, na rua Campo Santo, ao lado do Cemitério Municipal da cidade. Ele conta que o seu pai fez uma troca de casa com uma de suas filhas de santo, pois o terreno da casa onde hoje é o Centro do Pai Dedé era grande e dava para construir o centro que ele queria. Foi o que aconteceu.

Apesar da fundação do primeiro terreiro de Dedé de Macambira ter acontecido em 27 de setembro, Leandro explica que eles comemoram o dia da fundação em outubro, juntamente com festa de orixá Oxum.

"Meu pai era filho de Iansã e Ogum, mas tinha um carinho especial por Oxum. Por esse motivo, deu nome ao seu terreiro da Orixá Oxum. Ele contava que havia recebido uma graça grande dela e seu terreiro prosperou. Afinal, ela é o orixá da fertilidade, das águas doces. Seu símbolo é o coração", disse Leandro.

Leandro explica que o seu pai recebia 7 caboclos cachoeira, entidade com poderes de cura.

"Há relatos de pessoas que estavam na UTI e depois da cura dele ficaram boas. Ele também recebia Zé Pelintra e dona Maria Padilha, entidades que sofrem preconceitos por serem consideradas do diabo, mas que, no nosso terreiro, ajudaram muita gente nos trabalhos espirituais do meu pai", disse.

Pai Dedé também era conhecido por não levar desaforo para casa. Com ele não tinha esse negócio de "papas na língua". Quando perguntado sobre o jeito, digamos, um pouco rude do seu pai, Leandro explica:

Pai Dedé de Macambira era uma pessoa autêntica
"Meu pai era autêntico demais! Foi a forma que ele encontrou para enfrentar essa sociedade tão cruel. Às vezes, eu ficava morto de vergonha, porque se ele via algo errado ou sentia que alguém queria diminuí-lo, ele falava o que tinha para falar e não levava desaforo para casa. Por isso que, até hoje, existe uma rivalidade grande com nossa Casa, porque ele falava mesmo e, se alguém não se adequasse as normas e doutrina da Casa, ele despachava logo. As pessoas de nossa religião são muito desunidas. Andaram falando que nossa casa fechou, etc. Mas não importa. Esta casa perdeu o seu líder e não é do dia para noite que irá reabrir as portas para o público. Existem rituais internos que são feitos após a morte de um babalorixá. Nesta Casa, o orixá é quem determina quando devemos começar".

Babalororixás e irmãos de santo:
Eduardo de Ogun e Leandro de Oxossi
Segundo o babalorixá Leandro de Oxossi, que conta com o apoio do seu irmão de santo e babalorixá Eduardo Marinho, que atende por Eduardo de Ogum, a Casa mais antiga da cidade, com 57 anos de história e hoje com o nome Ile Ty Oxum Casa do Ouro, mas que eternamente será conhecida por Centro de Dedé de Macambira, reabrirá suas portas em breve.

Leandro explica que durante esse um ano de luto por determinações dos orixás foram feitos rituais internos. Dito com outras palavras, a casa continuou recebendo as pessoas normalmente para tratamentos espirituais.

Dedé de Macambira morreu aos 73 anos e não aos 75 anos como foi divulgado por este blog no dia do seu falecimento. Na verdade, Pai Dedé, assim como muitos outros de sua época, teve a data de nascimento alterada em seu registro de nascimento. No registro consta que ele nasceu no dia 4 de abril de 1940, mas,  na verdade, ele  nasceu dois anos depois, em 15 de abril de 1942.

Apesar de ter apenas quatro filhos registrados em seu nome – três de sangue e um adotivo –, aos longo dos seus 56 anos dedicados a Umbanda, é  impossível contar quantos filhos espirituais e quantas pessoas Dedé de Macambira ajudou.  Que ele descanse em paz no "orum" e que a sua Casa tenha dias prósperos e felizes. Esse é o desejo da Equipe do Cidadão Macaibense.

Dia 19 de fevereiro de 2015 – Uma multidão de filhos dá último adeus ao Pai Dedé
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