16 de novembro de 2018

VALÉRIO MESQUITA, UM MECENAS


Por Padre João Medeiros Filho

O termo mecenas deriva do nome de “Caius Cilnius Mecenas”, político romano, conselheiro do imperador Augusto. Ele formou um círculo de pessoas ligadas à cultura de seu tempo, dentre as quais, Horácio e Virgílio. O étimo atravessou os séculos, passando a significar o patrocínio à produção literária e artística. Originalmente, era mais abrangente, englobando quem incentivava, produzia e patrocinava atividades culturais. Vários governos (o que acontece ainda hoje) valiam-se de artistas e intelectuais para difundir ou melhorar a própria imagem e a de sua administração. Na sociedade romana, mecenas era alguém capaz de fomentar as ciências, letras e artes. Hoje, tais atividades deram origem a várias profissões: promotores, patrocinadores, animadores culturais etc. No período renascentista a preocupação com a cultura aumentou, inspirando-se na antiguidade greco-romana. Vivia-se um período de prosperidade com os descobrimentos e o surgimento da burguesia. As obras de arte passaram a ser uma forma de investimento financeiro. Dentre os grandes mecenas, destacaram-se as famílias Sforza, Médicis e os papas Júlio II e Leão X.

Na idade contemporânea, Aloisio Magalhães, quando dirigia a Fundação Nacional pró-Memória, considerou novembro o mês do mecenato, em homenagem a Ruy Barbosa, nascido no dia 5 (coincidentemente também seu aniversário), data consagrada à cultura. No dia 18 do mesmo mês, em Macaíba, nasceu Valério Alfredo Mesquita, que imprimiu sua marca na vida cultural do RN, presidindo a Fundação José Augusto – FJA, na década de 1980. É notório que Macaíba legou a este estado grandes nomes das ciências, letras e artes.

Este artigo é uma homenagem justa e merecida, assim como um registro do abnegado trabalho de Dr. Valério, à frente da FJA, em duas gestões. Este conseguiu a façanha de deslocar, até às terras potiguares, Roberto Marinho, empresário e patrocinador cultural. O jornalista aqui veio para reinaugurar a Capela de Utinga, restaurada pela FJA com a participação da instituição carioca, que leva o seu nome. Vale lembrar ainda que Valério Mesquita tomou todas as providências para trazer Carlos Drummond de Andrade a Natal a fim de conhecer Câmara Cascudo, como era o desejo do poeta itabirano. De última hora, ele desistiu da viagem devido à sua fobia a avião.

A administração de Dr. Valério – precedida da pioneira e dinâmica presidência de Dr. Cláudio Emerenciano – foi profícua de parcerias para elevar o nome da cultura norte-rio-grandense no cenário nacional. Pode-se enumerar a realização de vários convênios com instituições nacionais (da época), públicas ou privadas: Conselho Federal de Cultura, Fundação Nacional da Arte – FUNARTE, Instituto Nacional de Artes Cênicas, Instituto Nacional do Folclore, Instituto Nacional do Livro, Biblioteca Nacional, Embrafilme, Fundação Nacional pró Memória, Receita Federal, Fundação Roberto Marinho, Sul América, além do financiamento da FINEP para a relevante pesquisa sobre a seca no Nordeste brasileiro, coordenada pelo professor Itamar de Souza.

No campo editorial, nas gestões de Valério Mesquita, a FJA ultrapassou uma centena de edições de obras de autores norte-rio-grandenses. Livros esgotados de renomados escritores (como por exemplo, História do RN, de Câmara Cascudo e também aquela de Tavares de Lyra), que foram reeditados. Tradicionais casas editoriais do eixo Rio-São Paulo-Brasília: Vozes, Agir, Ática, Edições do Senado Federal, Cortez Editora, Achiamé, Presença, e Cátedra firmaram contrato de coedição de livros de autores potiguares (foram 26 trabalhos). Com editores norte-rio-grandenses (Clima, EDURFN, Nossa Editora etc.) foram publicados 25 livros. Em edições isoladas, a Gráfica Manibu imprimiu setenta trabalhos literários, perfazendo o total de 121 obras publicadas. Convém recordar que “O Galo” (jornal literário) foi lançado, na sua gestão.

Valério Mesquita, advogado, político, administrador, conselheiro do TCE, membro do IHGRN, ANRL, UBE, Conselho Estadual de Cultura, sobretudo um homem de fé, faz lembrar a parábola dos talentos: “Aproximou-se aquele que recebera cinco talentos, e trouxe-lhe dez, dizendo: Senhor, vós entregastes cinco talentos; eis outros cinco que multipliquei” (Mt 25, 20). No seu aniversário, além das orações – uma das poucas coisas que sei fazer – entoarei a bela canção de Flávia Wenceslau, interpretada por Fábio de Melo: “Eu te desejo Vida, longa vida e que a mais doce estrela seja tua guia, como mãe singela a te orientar… E a fé movedora de qualquer montanha te renove sempre e te faça sonhar”.

Texto/Foto via Senadinho Macaíba