7 de dezembro de 2018

Minha Macaíba de sempre

Dr. Ionara Nunes / Cerimônia do Cidadão Macaibense 2017

Por Ionara Nunes - Potiguar Notícias

A minha história com Macaíba se inicia no mesmo período em que começa a minha história como ser humano. Não nasci no município, apenas não nasci, já que meus pais, moradores da cidade, fizeram questão de que o parto de minha mãe ocorresse na capital, devido aos melhores recursos da época, por certo.

Em Natal morei por sete dias e no dia sétimo dia de setembro, depois de o motorista contornar diversas vezes as ruas do bairro de Petrópolis para desviar do desfile cívico, finalmente retornei, para onde seria até hoje, o meu lar.

Minhas primeiras lembranças se confundem com uma parte da história do crescimento da cidade, pois no final das décadas de 1970 e 1980 o município passava por transformações, conjuntos habitacionais da COHAB foram construídos e novas escolas surgiram. 

O primeiro grande conjunto habitacional, hoje o bairro Alfredo Mesquita Filho, permitiu a meus pais a concretização do sonho da casa própria e nele, além das ruas, do posto policial e da quadra de esportes, continha uma escola estadual, a também denominada Escola Estadual Alfredo Mesquita Filho e lá eu estudei.
Minha infância foi igual a de muitas crianças da cidade, brincava na rua, jogava queimada na quadra do conjunto após o colégio, ia para a aula de reforço na escolinha da professora Maria Letícia, me divertia com os amigos no clube da bicicleta, brincava, e muito, no sítio que tinha na frente da rua São João, a rua em que morava.

Como era bom brincar subindo naquelas mangueiras, disputar corrida com o filho do caseiro do sítio, pular elástico com as vizinhas, além de participar ativamente das atividades infantis da catequese da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, esta no centro da cidade. 

Lá descobri que tinha talento para falar em público, pois aos seis anos de idade fui escolhida para ler uma leitura na Missa das Crianças e senti um estranho prazer em receber os elogios dos adultos: “nossa como ela é novinha e já lê tão bem...” depois desse dia eu não parei mais...ali se iniciava minha vida na igreja e minhas aparições enquanto pessoa pública.

Os anos se passaram e com eles fui aprofundando minha participação na igreja do saudoso Padre Amorim de Souza, sua irmã, a catequista Dona Emília e a secretária paroquial Jauva, também na escola, entrei para o grupo de canto, de teatro, fui candidata a Rainha da Festa da Padroeira e fui por onze anos seguidos Nossa Senhora nas apresentações da Legião de Maria da Paróquia. Um dia cansei e disse: não quero mais, estou velha para ser Maria e finalmente escolheram outra menina, mas até hoje as senhoras mais nostálgicas lembram dos meus tempos de Maria...

Fui crescendo e paralelo a isso uma vontade de viver e lidar com pessoas crescia na minha mente, era questionadora e já sonhava desde sempre com o Direito, mas no período do vestibular não fiz essa escolha, acabei fazendo Serviço Social e meu primeiro emprego ocorreu também em Macaíba. 

Fui convidada pelo prefeito Fernando Cunha para fazer parte da equipe do Centro de Atenção Psicossocial para tratamento de pessoas com transtornos mentais e fiquei por gratificantes e intensos cinco anos. Ali pude conhecer de forma mais profunda a cidade que até então conhecia superficialmente e passei a enxergar todas as pessoas com todas as suas diferenças e sua dores. Macaíba possui bairros muito diferentes dos que eu até então conhecia.

Ao longo desse tempo pude acompanhar muitas transformações: a cidade deixou de ser apenas um dormitório e ganhou uma estrutura melhor, seus cidadãos tiveram acesso a serviço mais eficiente na saúde e de forma geral a cidade ganhou ares modernos, mas com isso veio o crescimento da violência e já não vejo as crianças de hoje brincando na rua como era no meu tempo de criança.

Assim como a cidade foi se tornando importante para a Região Metropolitana de Natal eu fui acompanhando essas mudanças e tenho um enorme orgulho de ter crescido junto com ela. De ter aproveitado o desenvolvimento da cidade e ao finalmente me tornar a advogada que sou, ter feito minha primeira audiência no Fórum Tavares de Lyra, o mesmo que carrega o nome de um ilustre macaibense que chegou a ser governador do Rio Grande do Norte e Ministro de Estado.

Hoje vejo uma Macaíba ativa e enérgica, devido à correria diária e à violência urbana, não tenho mais condições de conversar na calçada com as senhoras da vizinhança, mas meu coração sempre irá transbordar de alegria pelo desejo de ver minha Macaíba crescer, se desenvolver, e ver seus filhos melhorarem de vida, de acompanhar a procissão da Padroeira no dia 08 de dezembro e de lembrar que nela dei meus primeiros passos, descobri minha vocação e obtive reconhecimento de seus cidadãos quando homenageada pela equipe do Jornal Cidadão Macaibense pela assinatura da coluna Reflexões.

Sim, Macaíba só me trouxe e continua me trazendo alegrias. Espero que a vida seja longa e eu possa desfrutar dela para contemplar cada vez mais o futuro de minha tão querida cidade.