25 de junho de 2019

O casarão de d. Lourdinha


Por Anderson Tavares de Lyra

Assistindo as transformações de uma cidade, o historiador sofre duas vezes: por saber como era e como se encontra determinado local. Por ter a noção histórica e sentimental da importância de determinado bem, seja ele arquitetônico, documental e mesmo imaterial. Hoje, dia 24 de junho de 2019, o último casarão que resistia na Rua João Pessoa, antiga Rua da Pátria, centro de Macaíba, começou a ser demolido. Com as pedras vão-se as boas lembranças da infância e juventude passadas naquele lugar.

Construído entre os anos de 1948-49, em estilo eclético, para ser a residência do abastardo comerciante e político Luís Cúrcio Marinho (1901-1971) e sua esposa Letícia Grilo. Luís Cúrcio estava no cargo de prefeito de Macaíba e edificou sua casa ao mesmo tempo em que urbanizava o antigo cais do porto da cidade, transformado na atual Praça Dr. Antônio de Melo Siqueira e que constituía o espaço público mais bem equipado e moderno de Macaíba.


Com a urbanização e a praça surgiu também o Parque Governador José Varela, espaço de modernidade no coração da velha cidade, que ensaiava os primeiros passos para sair do século XIX. O parque era composto por biblioteca, sede da banda de música, câmara de vereadores e o famoso Pax Clube, que reunia a sociedade local em festas memoráveis. Como sentinela de tudo, o antigo farol. 

O Brasil atravessava uma época na qual a industrialização ia chegando aos poucos à construção civil, até então atendida por indústrias de fundo-de-quintal ou por artesãos que confeccionavam na própria obra aquilo de que precisavam. Esta situação levou a construções bem típicas, como o casarão de Luís Cúrcio Marinho, que empregou na construção o que havia de melhor na época. 

Foram utilizadas veneziana nos quartos, o piso todo em ladrilhos hidráulicos, varanda na entrada, portões e muros baixos, manilha de barro, estuque e belíssimas colunas em estilo romano que guarneciam a entrada da casa e eram reproduzidas na divisão das duas salas principais. No banheiro, a instalação da primeira banheira de Macaíba.

Casarão de d. Lourdinha (2019)

O telhado usava telhas francesas, com seus caimentos acima de 40% e apoiadas em uma trama de ripas e caibros que, por sua vez, se apoiavam em tesouras feitas, em geral, de peroba e que se apoiavam em cima das paredes usando coxins, igualmente de madeira, para distribuir melhor o esforço sobre os tijolos.

O casarão possuía um belo jardim, cujos canteiros eram demarcados por pequenas e reluzentes pedrinhas brancas e guardado por um poste artisticamente trabalhado e que repousava dentro de uma piscina rústica. O alpendre em “L” possuía muretas, que eram encimadas por canteiros de pequenas flores. Nos fundos da residência, Luís Cúrcio instalou um parque e um pequeno zoológico para deleite de sua filha Rosa de Lourdes. 

Posteriormente com a sua mudança para Natal, Luís Cúrcio vendeu a casa e os prédios comerciais ao casal Cícero Luís e Silva e Maria de Lourdes Pessoa, que conheci e privei da amizade, especialmente de d. Lourdinha, a quem eu dedicava um carinho especial. Foi por ela que retirei o pedido de tombamento que fiz do casarão, em 2002. Não podia contrariá-la. 

D. Lourdinha, falecida no dia 31 de dezembro de 2017, aos 96 anos, resistiu até o fim, sentada na sua cadeira de rodas, do alto da antiga varanda, observando o “progresso” da cidade e cumprimentando a todos que passavam com o seu aceno amigo, será sempre uma imagem imóvel, na minha memória. 

Cícero Luís foi comerciante bem estabelecido em Macaíba com loja de tecidos e sapatos, no mesmo prédio em que hoje negocia Vinício Ferreira e filhos, na Rua da Conceição. Militou na política local, sendo candidato a prefeito de Macaíba. Quando Silvan Pessoa e Silva foi prefeito de Macaíba, entre os anos de 1977 a 1983, o casarão volta a ser o centro do poder na cidade.

Entre os anos de 1996 e 2006, o nosso grupo de amigos formando por Rondineli Dantas, André Luiz Galvão, Vinício Ferreira Neto, Thalys Menguita e Eudivar Farias Neto (bisneto de Cícero Luís e d. Lourdinha), fincávamos cadeiras ora na varanda, ora na calçada, e observando o vai e vem das pessoas naquela que é uma das artérias mais movimentadas do centro da cidade, jogávamos conversa fora. 

Particularmente, me dirigia sempre que possível final das tardes ao casarão, para conversar com d. Lourdinha, sua filha Dirinha e a saudosa Lourdes, que cuidava de tudo e de todos. Hoje, todas são lembranças, regadas no mais íntimo da saudade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Tenha consciência do que você vai comentar.